Há quem acredite que o café tem apenas um sabor: o gosto de café.
Mas quem se permite escutá-lo com atenção — sim, escutá-lo — descobre um universo inteiro escondido em uma única xícara.
O café é, talvez, uma das bebidas mais complexas que existem. Dentro de cada grão torrado repousam centenas de compostos aromáticos, que se transformam conforme o terroir, a variedade, o processo e a torra. Cada detalhe — da altitude da fazenda à umidade do ar durante a secagem — deixa uma assinatura invisível, uma nota que só se revela quando o café encontra a água quente.
Quando estudamos café com a mesma curiosidade com que um enólogo estuda o vinho, percebemos que ele pode conter notas de frutas vermelhas, de mel, de flores brancas, de chocolate, de nozes, de especiarias — e até de vinho ou rum, quando o processo pós-colheita é mais ousado.
Esses sabores não são adicionados; eles emergem naturalmente da alquimia entre natureza e técnica. São dons do solo, do clima e do cuidado humano.
Como produtora, aprendi a identificar essas nuances caminhando entre as fileiras de cafeeiros. Um mesmo talhão, colhido em dias diferentes, pode revelar perfumes distintos. Um café colhido cedo na temporada pode ser mais cítrico; um colhido mais tarde, mais doce. E é nesse jogo de sutilezas que mora a verdadeira arte da degustação.
Degustar um café é um exercício de presença. É preciso deixar a pressa do lado de fora e abrir espaço para o paladar escutar o que os sentidos têm a dizer. Feche os olhos. Sinta o aroma antes do primeiro gole. Note como o sabor se transforma à medida que a bebida esfria. O café é vivo — ele muda, respira, revela-se aos poucos.
Os sabores escondidos no café são como memórias: aparecem quando menos se espera. Um toque de jasmim que lembra um jardim da infância, um suspiro de cacau que evoca tardes de chuva, um traço de frutas maduras que desperta lembranças de viagens.
Por isso, digo sempre que o café é mais do que uma bebida — é uma experiência estética, quase filosófica.
Descobrir seus sabores é também um modo de se descobrir.
De cultivar atenção, sensibilidade e respeito por tudo o que é feito com as mãos, com o tempo e com a terra.
Da próxima vez que preparar o seu, permita-se essa aventura sensorial.
Procure o que está escondido.
Porque o café, quando bem observado, é um espelho delicado do mundo — e de quem o saboreia.
