Ritual do Café

Há algo de profundamente humano no ato de preparar um café.
Talvez porque, antes mesmo do primeiro gole, ele já nos convida à pausa — essa delicada arte de estar presente.
O café é, por natureza, um ritual.
Desde o instante em que o escolhemos — o grão, a torra, o método — até o momento em que o aroma se espalha pela casa, há uma sequência de gestos que combinam técnica, memória e afeto. Moer o café, aquecer a água, observar o pó se transformar lentamente em infusão… tudo isso tem um ritmo, quase uma coreografia silenciosa.
Na fazenda, esse ritual começa muito antes da cozinha.
Começa no campo, quando os primeiros raios de sol tocam os cafezais e o ar ainda traz o frescor da madrugada. O cheiro da terra úmida, o som das folhas, o murmúrio das colheitadeiras ou das mãos que recolhem os frutos maduros — tudo é parte do mesmo gesto ancestral que se repete há séculos.
Mas o verdadeiro ritual se revela no cotidiano, no espaço íntimo.
É aquele primeiro café da manhã, tomado com calma, quando o mundo ainda desperta. É o café que precede as conversas importantes, que acompanha a leitura de um livro, que sela encontros e despedidas. É um café feito para pensar, para sentir, para lembrar.
Como cafeicultora, gosto de ver o café não apenas como uma bebida, mas como um tempo.
O tempo de preparar, o tempo de esperar, o tempo de saborear.
Em uma época em que tudo se quer instantâneo, moer os grãos e esperar a água ferver é um pequeno ato de resistência. É escolher a qualidade sobre a pressa, o prazer sobre o hábito.
Cada pessoa tem seu próprio ritual. Há quem prefira o coador de pano, quem defenda o espresso perfeito, quem jure fidelidade à prensa francesa. Não importa o método — o que importa é o gesto. Porque o café não se resume ao sabor: ele é o espaço simbólico onde o corpo desacelera e a alma desperta.
Quando preparo o meu, gosto de observar o vapor que sobe, leve, como um incenso cotidiano. É um momento íntimo, quase meditativo. E penso que, em cada casa, em cada canto do mundo, há alguém fazendo exatamente o mesmo — buscando, em uma simples xícara, um instante de sentido e de calma.O ritual do café é, afinal, o ritual da vida: repetido, simples, mas sempre novo.
E é talvez por isso que o café nunca perde sua magia — porque, a cada dia, ele nos oferece a chance de recomeçar.

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